Você não me perguntou como eu sou. Você não fez questão de saber das minhas manias e crises. Deixei transparecer alguma qualidade qualquer e você já foi me enchendo de elogios. Não fez esforço pra me conhecer, pra realmente me conhecer. Se impressionou com essa primeira boa impressão que sem querer causei. Mas o tempo passou e muita coisa mudou. Na verdade, nada mudou. Eu sempre fui eu. Você que não deu tempo ao tempo. Você que não se permitiu esperar e me decifrar. Foi descobrindo um defeito aqui e outro ali. Começou a perceber que o meu humor varia, que ignorar é uma arte que eu domino. Então toda aquela ladainha de sempre começou. “Você tá diferente comigo”, “Por que se afastou de mim?” e todas aquelas outras coisas que todo mundo já esta cansado de saber, de ouvir. E o mais engraçado disso tudo é que essa novela que é a minha vida. Sempre se repete. É como se fosse um vale a pena ver de novo.
(…)
— Sei lá, tenho muito medo
— Do que você tem medo?
— De não ser o suficiente, de não ser boa o suficiente.
Admito, a culpa foi minha. Foi tudo culpa minha. Eu que vivi esse tempo todo criando diálogos que nunca existiram, fantasiando momentos que jamais aconteceram, e fazendo da nossa história um faz de conta. E você deve tá se perguntando; “Que história?” Essa daí que nunca existiu. Essa daí que eu inventei esse tempo todo. Essa daí que nunca vai acontecer. E é triste ter que admitir pra mim mesma que tá na hora de acordar e viver. Sei que sonhar faz um bem danado, mas depois pra conseguir acordar pra realidade dá um trabalho.